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O factor autocarro e a sustentabilidade do Interruptor
Published on March 1, 2022 by Rute Correia

Olá,

Há uma teoria de sustentabilidade muito popular na cultura do software de código aberto que é o factor autocarro. O factor autocarro é o número mínimo de pessoas cujo desaparecimento súbito (por exemplo, se forem atropeladas por um autocarro) comprometerá a continuidade de determinado projecto. Quanto maior for esse número em relação ao total de envolvidos, pior a sustentabilidade da iniciativa. Apesar do nosso esforço na edificação de um meio resistente a condicionantes externas e internas, continuamos uma estrutura particularmente vulnerável. Desde o início, tenho frisado que o Interruptor não sou eu, mas antes uma pequeníssima equipa de três pessoas. Sem o Ciaran Edwards (programador do nosso site) e sem o Ricardo Correia (assistente de produção), dificilmente existiria, pelo menos com os contornos que tem hoje. No entanto, sou a única pessoa que trabalha a tempo inteiro no projeto, assumindo praticamente todas as responsabilidades editoriais e administrativas. Se fosse atropelada por um autocarro, o Interruptor acabava na hora.

Nos últimos meses, eu e o Ricardo trabalhámos arduamente para minimizar o factor autocarro. Algumas das decisões que tomámos são o reconhecimento de que precisamos de uma certa estabilidade para podermos evoluir: reduzimos a nossa frequência de publicação (de quinzenal para mensal) e acabámos com a nossa única rubrica semanal. Tentámos, ainda, mitigar outra das nossas maiores debilidades (a concentração de todo o processo editorial em mim), apostando na diversificação da nossa produção – com crónicas mensais assinadas por pessoas externas à nossa micro-redacção e integrando a EDJnet, o que abriu novas possibilidades de criação jornalística em cooperação com outros meios. Ainda estamos a afinar alguns detalhes, mas até agora os resultados destas pequenas mudanças são notórios, sobretudo internamente. A sobrecarga constante da nossa equipa foi ligeiramente atenuada, permitindo um planeamento mais realista da nossa atividade.

No entanto, a nossa viabilidade financeira continua por cumprir. A bolsa que recebemos da GFTW pagou-nos ordenados durante o último semestre, aliviando um pouco a ansiedade galopante da luta diária pela sobrevivência do projecto. Como noutras bolsas, a utilização deste dinheiro estava orçamentada desde a candidatura, estando circunscrita a um período de seis meses (que conseguimos alargar até oito). Findo este período, é óbvio para nós que, embora sejam uma ajuda à sobrevivência de meios mais pequenos (sobretudo os que não têm fins ou parceiros comerciais), as bolsas não garantem nem promovem a sua sustentabilidade. Não me quero alongar demasiado na reflexão sobre modelos de negócio de meios de comunicação alternativos, mas acreditamos que a melhor maneira de ser sustentável é assegurar a diversificação da receita, algo que tem sido particularmente desafiante, quer pela nossa reduzida equipa (a acumulação de responsabilidades tende a ser asfixiante), quer pelas limitações da profissão de jornalista e de uma lei de imprensa desadequada ao panorama digital da atualidade. Idealmente, gostaríamos de sobreviver apenas com as subscrições e os donativos de quem nos lê. Não obstante algumas doações particularmente generosas, para mantermos esta estrutura (e admitindo que estes são os serviços mínimos), precisaríamos de cerca de 10x mais donativos recorrentes do que os que temos neste momento.

O Interruptor é um produto de amor e dedicação, que também saiu do nosso bolso: seja pelo parco investimento inicial que a criação de um OCS exige (em comparação com outros empreendimentos), seja pela ambiciosa e privilegiada decisão de me ter dedicado em exclusivo ao projecto em mais de um ano de trabalho não remunerado, sustentado por poupanças pessoais (minhas e do Ciaran). Acontece que somos pessoas com as mesmas preocupações e necessidade das demais: com casa, comida, estudos e outras despesas quotidianas para pagar. Seria inviável continuar a trabalhar a tempo inteiro sem receber. Considero necessária esta explicação tendo em conta o voto de confiança que nos deste com o teu apoio, essencial para a sobrevivência do projecto. 

A partir de hoje, deixo de trabalhar em exclusivo para o Interruptor. Manterei a minha liderança editorial e continuarei a assinar a maioria das reportagens originais que publicamos, mas deixa de ser o meu único foco. Não prevemos que esta mudança tenha grandes reflexos no ritmo nem na qualidade do que publicamos. Afinal, o factor autocarro do Interruptor mantém-se elevado, mas tem diminuído drasticamente e continuamos a trabalhar nesse sentido. 

Este texto serve como promessa de que continuaremos a publicar bom jornalismo de dados dedicado à cultura nacional (e não só), honrando os compromissos que assumimos até aqui e levando-os a bom porto no futuro. Temos várias peças preparadas para os próximos meses, algumas delas em colaboração com outros OCS até para lá da EDJnet. A cooperação está na matriz do que somos, do que temos feito e do que ainda queremos fazer. Isto é só o início.

Muito obrigada pelo teu apoio.

Um abraço,

Rute Correia, diretora do Interruptor